sábado, 31 de janeiro de 2009

1ª HISTÓRIA

Tal como ontem prometi, vou contar um dos muitos momentos inesquecíveis que vivi enquanto professora.
Estes momentos são, uns divertidos, outros dramáticos, mas todos eles vividos por mim.
Fazem parte do meu BAÚ DAS RECORDAÇÕES.

1 de Março de 1975

Dali a 24 dias celebrava Portugal o seu primeiro aniversário em liberdade após uma ditadura assente na constituição de 1933, que não garantia os direitos dos cidadãos, controlava todas as formas de expressão política, social e cultural, mantendo o país isolado de toda a Comunidade Europeia.
Pretendi com esta introdução situar em plena época pós-revolucionária - O 25 de Abril de 1974 - os primeiros passos da minha profissão docente.
Fui colocada como professora provisória em substituição na Escola Secundária .... Porto , num horário completo misto (diurno e nocturno), para leccionar as disciplinas de Matemática aos 7ºs e 8ºs anos e a disciplina de Mercadorias ao Curso Nocturno.

A agitação era nesta altura sentida ainda em todos os sectores da sociedade portuguesa e talvez de uma forma mais visível e aguerrida no meio escolar. Não admirará muito por isso que o meu primeiro episódio se refira à minha vivência peculiar em pleno átrio da escola, quando me dirigia à secretaria para tomar posse do meu primeiro lugar como docente e funcionária pública.

Eram 10 horas da manhã.

Entrei … Sentia-me perdida e meia tonta, como acontece quando se aceita o primeiro emprego. De súbito vi-me rodeada de jovens vestidos muito pouco ortodoxamente, predominando o “esfarrapado” e o negro, que, empunhando guarda-chuvas, procuravam “demitir” por si próprios uma professora que por qualquer razão não tinha correspondido aos parâmetros considerados por eles então, como certos.

Os ânimos estavam exaltados. As palavras eram duras e ofensivas.
Com muita dificuldade a colega conseguiu sair para o exterior e fugir à ira dos alunos, que continuavam a agredir-se como se “o seu” objecto ainda permanecesse entre eles.
Eu própria senti num ombro o “peso” de uma ponta metálica de um guarda-chuva.

Pensei perante tudo isto, recuar e deixar para trás a profissão pela qual estava apaixonada, pela qual lutara e que hoje 33 anos volvidos continua a ser a única pela qual recomeçaria a minha carreira com o mesmo entusiasmo (se tivesse claro, a idade que tinha então…).

EPISÓDIO 1

Quando entrei na sala dos professores, senti que afinal não havia em mim nada que pudesse ensinar aos alunos.
- Será que eu sei alguma coisa?
- Que vou fazer ao entrar na sala de aula?
- Saberei classificar ?
- Como controlar o tempo de exposição ?

Estava em pânico!

Uma colega bastante mais velha, de cujo apelido apenas me recordo (Pata Choca), chega perto de mim e diz-me:
- Sabe que sou capaz de adivinhar tudo o que está a pensar?
Olhei para a colega com alguma incredulidade, mas pior fiquei, quando ela repetiu quase textualmente o que ia na minha mente.
Corei! - nessa fase eu era extremamente envergonhada - mas não pude deixar de concordar.
A resposta que a colega me deu jamais a esqueci e julgo que todos os anos de uma forma ou de outra a repeti aos novos colegas:

Todo o miolo que o curso nos deu já ficou lá fora, resta o suporte e agora somos nós que construímos o edifício com as nossas próprias mãos.
Olhe bem para as suas … Tem-nas não tem? Então o seu edifício muito em breve se verá. Será diferente de todos os outros, mas será o seu.
Força. Não está sozinha!
Estou aqui para apoiá-la no que precisar.


É verdade! Nunca estive só. Aprendi muito com essa colega e com todo o 4º grupo B dessa escola. Eram umas verdadeiras senhoras (por acaso eram mesmo só senhoras ).
Obrigada Colegas.

Outro Episódio se seguirá.
Licas (Isabel)

3 comentários:

ematejoca disse...

Olá Licas!
Gostei muito de ler a sua primeira história, apesar das altas horas da manha. Cá espero o próximo episódio. Que disciplina é essa de "Mercadorias". Nunca ouvi falar.

Boa noite!

Licas disse...

Tem razão em não conhecer essa disciplina.
Ela terminou dois anos depois e fazia parte do currículo dos cursos nocturnos.
Ninguém sabia para que servia, nem sabia como leccioná-la. Lembro-me que a capa do livro era preta com desenhos e letras brancas.

Achei por bem fazer trabalhos com os alunos, o que nessa altura se tornava complicado porque não havia computadores.
Mas ... Lá consegui chegar ao fim.
Beijinhos e boa noite.
Licas

Artista Maldito disse...

Bom Dia Licas

Lembro-me perfeitamente da exixtência de disciplinas que nessa época ninguém sabia o que significavam.

Mas o que hoje me traz aqui é mais uma prendinha de amizade que tem no artista maldito.

Beijinhos
Isabel