terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

3ª HISTÓRIA



Pois a história do Senhor Pereira ... podia nunca mais acabar!

Vou contar outro episódio que define bem o seu carácter:

3º HISTÓRIA

TINHA TERMINADO UMA AULA.

Cautelosamente ele (Senhor Pereira) deixou que os colegas saíssem e, como se viesse tirar uma dúvida, disse-me assim:
- Senhora Drª, Não estou aqui para fazer denúncias, mas peço-lhe que perca um ou outro intervalo e observe a Alice (Uma sua colega de turma).
- Não quero para já assinalar mais nada, mas pode contar comigo se precisar de ajuda.

É evidente que a partir desse momento perdi vários intervalos.
A Alice, distinguia-se na turma pela sua timidez, silêncio e até uma certa “ausência”, não faltando porém, nunca às aulas.
Tinha um aproveitamento médio.
A mãe era professora primária, parecia atenta ao desenvolvimento da filha e comparecia a todas as reuniões para que era convocada. Às vezes mesmo aparecia por iniciativa própria, para saber informações da filha.
Falávamos muito sobre a sua timidez, o que a provocaria, que precisava de dar mais atenção a esta ou aquela disciplina, mas nunca aludi a qualquer acto ou momento grave porque realmente nada tinha ressaltado sobre a Alice no espaço turma.
As nossas conversas eram amenas e ficavam-se quase sempre por aí.

Realmente depois do alerta do Senhor Pereira perdi alguns intervalos, até que comecei a notar que durante os mesmos, a aluna parecia não estar tão só, nem tão isolada de alguns elementos da turma, apesar de continuar “apagada” e “pouco alegre”.
À sua volta, quase como abelhinhas rodopiavam constantemente colegas com sacos de batatas fritas, queques ou outro tipo de goludices.
A Alice porém, embora incluída no grupo, normalmente não partilhava desses lanches.
A primeira hipótese que se me colocou, foi a de que a criança não tivesse possibilidades para adquirir o mesmo que os outros e que se aproximasse deles para que eventualmente lhe oferecessem algo.
Um dia porém, reparei que a aluna logo que chegou ao bar retirou da carteira uma nota de 1000$00 e que de imediato se lhe juntaram os colegas e começaram a voar os sacos de batatas fritas e ...

Chamei o Senhor Pereira e perguntei-lhe se era costume acontecer com frequência aquela cena. Ele só me respondeu : - Que lhe parece?
Resolvi, abordar a empregada do bar e perguntar-lhe se por acaso notava que os alunos gastavam dinheiro exageradamente nos lanches.
Primeiro respondeu que não tinha dado conta, mas depois referiu que havia uma aluna do 8º ano, que gastava sempre bastante.
Perguntei-lhe se isso não a intrigava e como resposta ouvi somente :
- A mãe é professora deve poder dar-lhe aquilo tudo.
Como Directora de Turma, não só apelei à consciência profissional e de educadora da funcionária, ao dever que tinha em informar a D.T. de casos idênticos e posteriormente convoquei a mãe da aluna para uma reunião a fim de concluir a ficha da mesma.

VEIO DE IMEDIATO!

Comecei por tranquilizá-la, mas que me tinha surgido um dúvida e que gostaria de esclarecê-la.
Perguntei-lhe então:
- A sua filha costuma tomar o pequeno almoço em casa ?- Claro! Toma sempre um copo de leite e um pão com geleia (recordo-me muito bem
deste pormenor… )
- Depois para o meio da manhã dou-lhe dinheiro para um bolo
- Ela é gulosa? Gosta muito de batatas fritas e de chocolates ?
- Sim gosta, mas não é uma criança com uma tendência muito grande para esse tipo de
coisas. Gosta mais por exemplo de um copo de leite gelado ou de um queque.
Desculpei-me como pude e procurei saber quanto costumava dar-lhe por dia para gastar.

Já não me recordo muito bem dos preços da altura, mas o valor era equivalente ao preço de um copo com leite e um pão com manteiga.
Aí, tive mesmo que justificar a minha pergunta.
A Senhora, como acontece com todas as mães, sobretudo de uma aluna a quem nunca tinha sido apontada uma falha, revolta-se, diz que não pode ser, que há qualquer coisa errada, que deve ser outra aluna que traz o dinheiro e que lhe pede para ser ela a comprar...

Tentei acalmá-la e consegui que me prometesse nada fazer nem dizer a aluna, sem que ambas confirmássemos, pela atenção redobrada as nossas dúvidas.

Não foi preciso muito tempo!

Dois ou três dias depois, a mãe regressou muito chorosa, confirmando que a filha lhe retirava dinheiro da carteira e que até já tinham desaparecido uns bons pares de contos que ela tinha num mealheiro, fruto das prendas da comunhão solene, aniversários e Natais.
Dizia-me entre soluços, que nem coragem tinha de lhe falar, mas que estava muito magoada e queria castigá-la. – Mas se o Pai sabe... concluiu.

PERGUNTEI-LHE:
- Não acha melhor que tenhamos as três uma conversa , para que a Alice se explique?- Não haverá nenhuma razão implícita ?

Um pouco relutantemente a mãe concordou e para que não houvesse qualquer hipótese de que alguém percebesse, combinamos encontrarmo-nos, como que casualmente, naquele cafezinho que ainda hoje existe ao fundo da Avenida da Boavista (Vera Cruz).
A miúda quando me viu no café e pressentiu que a mãe vinha sentar-se com ela na minha mesa, mesmo antes de qualquer pergunta, começou a chorar copiosamente e só dizia:
- Não foi por mal ! Eu apenas não queria estar só! Eu queria que gostassem de mim! -Eu queria ter amigos …Eu sou antipática, ninguém gosta de mim!

Já não foi preciso abrirmos a boca … Percebemos!

Cada uma de nós procurou encontrar uma solução.
Socorri-me então do Senhor Pereira.
Expliquei-lhe a tristeza da aluna, a solidão que ela sentia na Escola e pedi-lhe que zelasse um pouco pela sua integração na turma.
Pelo meu lado, a pouco e pouco comecei a passar os meus intervalos com estes alunos, procurando duma forma ou de outra elevar a auto-estima da Alice, proporcionar-lhe momentos de felicidade e descontracção e aproveitei igualmente para observar mais de perto os outros elementos e ir actuando da forma que entendi na altura mais correcta.
Sei, que no final do ano tive dificuldade em separar-me deles!
Quiseram que eu fosse na tarde do último dia de aulas, com eles para a Rotunda da Boavista, onde já estavam montadas as barraquinhas para o S. João.
Andamos no carrossel, carrinhos de choque, túnel do terror e acabamos, a comer farturas e a beber sumo.

Apesar da minha inexperiência, este caso correu muito bem. Não foi alheio o empenho e bom senso da mãe da Alice, a atitude crítico-construtiva do Senhor Pereira e a confiança que lhes incuti.

Passaram-se muitos anos…

Estava eu numa sala de espera de um gabinete médico de um ginecologista, quando uma rapariga com cerca de 25 anos se me dirige e pergunta:
- Não é a Drª Isabel ?
- Eu sou a Alice. Lembra-se que eu era muito acanhada e triste ? Lembra-se que um dia fui lanchar com a minha mãe e a Senhora ao Café Bela Vista ?
Claro que me lembrei de imediato!
Fiquei feliz por ver uma rapariga tão desempoeirada. Estava licenciada em Biologia, tinha casado e julgava que estava ali para saber se ia ser mãe.
Perguntou-me depois:
- Sabe o que fiz quando ganhei o meu primeiro ordenado? Fui guardá-lo no mealheiro, que um dia esvaziei. Lembra-se?
- Agora vou tentar educar os meus filhos de forma a que nunca façam a asneira que eu fiz.

Chamaram-me para a consulta, mas ainda ouvi dizer:

- Nunca a esquecerei e tenho o maior respeito pelo Senhor Pereira. Gostava de saber dele e tê-lo no rol dos meus amigos.
- Adeus Alice! Sê Muito Feliz. Repliquei.

5 comentários:

Teté disse...

Uma história muito comovente, Licas!

As crianças timídas e acanhadas têm grandes dificuldades de integração, julgam-se assim uma espécie de "patinhos feios" e reagem de maneiras diferentes, sendo que a "compra" da amizade dos colegas não serve de muito... Muito menos andar a surripiar o dinheiro à mãe, evidentemente!

Beijocas!

Sónia disse...

Aposto que ficou extremamente feliz ao reencontrar esta aluna e saber o quão bem lhe tinha feito.
Belas histórias.

Artista Maldito disse...

Esta história é mesmo comovente como diz a Teté. Às vezes é muito dura a integração num grupo e na cabeça de uma jovem a solução é comprar a amizade. Ainda bem que no caminho a Alice encontrou pessoas compreensivas e atentas.

Beijinhos
Isabel

Fátima André disse...

Portugal é um rectângulo demasiado pequeno... quanto menos esperar, o Senhor Pereira aparecerá. Basta acreditar. Quem crê, pode!

Joana Carvalho disse...

Conseguiu arrepiar-me com mais esta sua história... Imagino quão reconfortante deve ter sido o vosso reencontro, e ver que a Alice já não era assim uma menina tão tímida como antes e como foi bom e preciosa a sua ajuda naquela altura... Fantástico!!! Beijinho