quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

9ª HISTÓRIA

Apenas em Abril – 18 -04 -79 (xhiiii ...iii, Já lá vão quase 35 anos !!!) fui colocada na Escola Secundária ... com horário
incompleto.
Iria seleccionar uma turma do 9ºJ - 4 horas de Matemática, 3 de Biologia e 3 de D.T. e outra turma do 8ºI apenas 4 h de Matemática. (Total de 14 horas)
No primeiro dia de aulas, cheguei à Sala de Professores e fui recebida por um grupo de colegas que estava no intervalo.
Perguntaram-me que turmas iria leccionar. Quando falei no 9ºJ senti uma troca de olhares, que confesso, me gelou.

Uma das colegas acabou por falar.

Olhe colega, disse ela. Eu até estou com pena de si, porque vai ter as piores turmas da escola e vem substituir uma colega que não aguentou a pressão dos alunos. Eles são desinteressados, malcriados, irreverentes, péssimos alunos e alguns até muito maus.
Perante semelhante descrição … quase me apeteceu pegar na pasta e dar meia volta.
Porém tocou!
Uma das colegas, simpaticamente disse que ia acompanhar-me até à porta, para que me sentisse mais à vontade.
Nessa altura eram os funcionários que abriam as portas das salas de aula e nos entregavam os livros de ponto.
Tínhamos por isso que esperar nos corredores juntamente com os alunos.

Estava eu a conversar com a colega que me acompanhou e que daria aula na sala pegada à minha, quando de repente sinto uma dor imensa numa perna. Algo me foi atirado com muita força.
Fez-se um enorme silêncio e os olhares convergiram para mim.

Em segundos pensei no que fazer e . . . a funcionária abriu a porta, sem que eu tivesse dito palavra.
Entrei, pousei a pasta, pus a minha cara “doutoral” e pedi-lhes o favor de se sentarem.

Comecei por dizer-lhes que era hábito meu, fazer o juízo dos meus alunos por mim própria e que me recusava a ouvir opinião de terceiros.
A partir dali eles seriam algo de novo com que eu iria habituar-me a conviver e que esperava deles a melhor compreensão, porque eu estava com vontade de trabalhar e de os ajudar ao máximo.

Perguntei-lhes se tinham alguma pergunta a fazer-me, disse-lhes o nome, o meu tempo de serviço e que estava à disposição de todos para o que necessitassem.
Isto passou-se numa boa parte da aula e contrariamente ao que me disseram os colegas, os alunos mantiveram-se numa atitude impecável.

Pedi-lhes que abrissem os cadernos.
- Não temos cadernos, replicaram.
Eu respondi-lhes:
É vosso costume dormirem sem lençóis na cama?
Lavam-se sem água?

Houve sorrisos e alguma inquietação.

Eu pus o semblante mais tenso que podia e afirmei:
- Hoje tudo bem, porque não sabiam que eu vinha, mas é um dado adquirido que na minha sala não entra ninguém sem o caderno diário e 1 lápis pelo menos.
- Estamos entendidos?
- Não me pagam para andar a brincar e nenhum de vocês, suponho eu, vem para a escola para roubar os pais, gastando o dinheiro deles sem proveito.
- Como não temos condições para continuar a aula, podem arrumar o que têm em cima das mesas de trabalho e mantêm-se em silêncio até tocar.

Acabei de falar.

Arrumaram o material e lá do fundo vejo um braço levantar-se.
Perguntei se queria alguma coisa.
O aluno disse:
- Quando estávamos para entrar, não sentiu nada na perna?
Porquê? Perguntei eu
- Achas que eu sou feita de quê?
- Se eu atirasse a algum de vocês aquilo que veio ter à minha perna, não vos doía? --- Vocês gostavam?
- Que pensavam?
- Pois eu vou dizer-vos que senti, fiquei triste, mas preferi ignorar e pensar que foi por acaso que o objecto veio ter comigo e não que um jovem atrevido e mal educado mo tinha atirado.
- Como vos disse há pouco, são vocês que a partir de hoje me vão dizer e mostrar quem são e o que valem. Perceberam?
- E agora podem sair porque já tocou.
À saída, o aluno do fundo veio pedir-me desculpa porque foi ele que me atirou uma bota daquelas texanas muito pesadas.
Dizia ele :
- Já toda a gente pensa mal de nós. Já não conseguimos que nos vejam com outros olhos e por isso continuamos a portar-nos assim.

Pedi-lhes que reflectissem no que lhes disse e que actuassem de acordo com isso.
NUNCA TIVE PROBLEMAS COM ESTA TURMA!
Muito pelo contrário! Ainda hoje vejo alguns dos alunos, que me sorriem com carinho. Com as colegas criei uma empatia forte e recebi delas um grande voto de confiança e muito respeito.

9 comentários:

Artista Maldito disse...

Boa Noite Isabel

Pois estas histórias são atribuladas e pelos vistos o mau comportamento vem de há alguns anos atrás. A Isabel soube controlar a situação e ainda bem para todos. Vocação para professor nem todos a têm, isso é verdade.

Beijinhos e obrigada por partilhar estas histórias, são diários importantes da realidade escolar,

Isabel

Teté disse...

Uma professora que conheço, reformada há muitos anos que deve estar perto dos 80 anos, um dia ia leccionar uma turma, que já tinha tido falta colectiva dos dois professores anteriores, com imensas queixas que eram uns mal educados.

Assim, quando chegou à sala (já preparada, é certo), viu que alguém tinha desenhado no chão a giz marcas como se fossem de ferraduras, que iam directamente à secretária do professor. Assim, entrou na sala, não fez aquele trajecto directo e foi passando pela mesa dos alunos vendo cadernos e assim, com calma, até chegar à secretária.

Os alunos estavam em expectativa, mas ela parecia não ter notado nada, ditou o sumário e tal. E por fim lá disse: "Houve alguém que ao entrar na sala se esqueceu de limpar os pés no tapete. Portanto é favor limpar o que sujou!" Os alunos riram-se e a professora seguinte já encontrou a sala sem as ditas marcas.

Isto de ser professor às vezes também requer alguma psicologia...

Esta história fez-me lembrar esse caso!

Beijinhos, Licas!

ps - não percebi qual era o desafio de Carnaval, mas se calhar ficou para depois, não?

Sónia disse...

Soube bem dar-lhes a volta. Às vezes não devemos partir logo com determinadas ideias acerca de pessoas que ainda não conhecemos.

CarlaSofia disse...

Gostei desta história, querida Licas.
Um beijinho e bom fim de semana

Fátima André disse...

Excelente testemunho. Bem precisamos de umas lufadas de ar fresco... e por falar em ar fresco, vou por-me a caminho e seguir viagem até ao meu Alentejo. Vou refrescar a cabeça e o espírito junto da família e alguns amigos.
Um grande beijinho e até breve :))

Multiolhares disse...

Muita das vezes a amaior parte da s vezes os miudos portam-se mal para chamar a atenção, mas se sentirem respeito e ao mesmo tempo são respeitados as coisas mudam.
beijinhos

Artista Maldito disse...

Bom Dia Isabel

Hoje venho entregar-lhe, com carinho, um selo que tenho na minha lapela: SOMOS MULHERES BEM RESOLVIDAS.

Continuação de bom fm de semana e beijinho
Isabel

BC disse...

Amiga Licas, finalmente cheguei.
Peço desculpa de não ter ontem enviado a mensagem, mas quando recebi a sua que muito agradeço, pela simpatia, estava no carro a chegar a casa.
No carro não podia enviar, e pensei ir ao blogue responder, e foi o que aconteceu só que temos andado com problemas de internet e penso que não sou só eu.

Não consegui passar, entretanto fui tratar de outras coisas e quando dei por mim, já não deu , computaores fechados.
Só agora ando a dar as respostas calmamente e ir aos blogues.
Um beijinho e até logo.
A partir de amanhã as coisas começam a entrar na linha.
Beijo
Isabel

Anjo Negro disse...

ai ai licas... as aparências iludem, nem tudo o que parece é =) as vezes isso é bom, mas outras vez não é assim tão proveitoso.
sabes as vezes dava tudo para fugir daqui e ir ter contigo... falar com alguém ou melhor falar contigo. ter alguém a olhar com gosto para mim, com vontade de me perceber. as vezes dou por mim a pensar que já não vejo isso muito nas caras das pessoas pelo qual passam na minha vida... o interesse predominas a maior parte do tempo.

dava tudo para neste momentos ouvir alguém tocar para mim um melodia num piano sem letra, mas que ao mesmo tempo esta se fosse compondo na minha cabeça não com palavras, mas com imagens=) ficaria a titulo da minha imaginação que nem sempre é a mais original contudo, é aquilo que tenho e não posso fazer nada para me mudar radicalmente... aprendemos a viver com os calos que a vida nos vai fazendo e aprendemos também a viver de forma a que este não nos magoem muito.

ontem a noite não consegui dormir e escrevi um texto para a vovó cassilda com a minhas incertezas e sobre o meu aparente vazio não sei se será boa ideias transcreve-lo para aqui? fico à espera de uma resposta. =)

Parabéns licas sei que não é data de festa (quer dizer eu penso que não), mas este pequeno texto vivido por ti provou que quando deixamos de acreditar que alguém possa ser diferente esta pessoa segue o rumo que todos aponta o dedo. é incompreendida por todos =(, mas depois aparece algo ou alguém que se pergunta sobre o porque daquelas atitudes e tenta saber mais (tal como tu fizeste com os teus antigos alunos) e então descobre coisas magnificas e com um valor incalculável. bjs tudo de bom para ti licas

bjs