domingo, 12 de dezembro de 2010

OS ÚLTIMOS TRÊS CONTOS A CONCURSO

CONTO Nº 7 - AS BOTINHAS DE NATAL
Era véspera de Natal e a jovem baronesa chegou às portas do Paraíso e bateu altivamente:
-Truz, truz!
Demoravam a atender… por certo não sabiam que era ela! A rainha de todas as grandes estreias, ela a quem os autores das peças ofereciam sempre o melhor camarote como se o sorriso da baronesa fosse um talismã para um grande êxito.
Via a fila engrossar cada vez mais e a porta sem se abrir… Não, não iria esperar indefinidamente na fila das colocações do céu, nem pensar nisso! Ela até trazia uma carta de recomendação…
Bateu de novo:
-Truz, truz!
Finalmente abriram-lhe a porta. Apareceu-lhe um santo com uma barba digna de um cantor de ópera.
Ao acaso chamou-lhe São Pedro – ele trazia consigo um molho de chaves – e explica-lhe o seu caso. Traz uma carta de recomendação consigo e tirando de uma bolsa último grito da moda umas botinhas cor-de-rosa às quais estava preso um sobrescrito lilás imensamente perfumado, entrega-as ao santo.
Todos os natais a baronesa fazia botinhas em lã, mais de cem, para a obra a que dava assistência e tinham-lhe prometido como recompensa uma boa plateia da frente, no céu.
São Pedro examina a botinha que acha perfeita, mesmo amorosa, porém, a fila à porta do Céu tinha aumentado: era a azáfama de todos os natais. Alguns tinham pago bem caro o direito a ter um lugar no céu. Disse à baronesa:
-Tem de esperar mais um pouco… bem vê…
-Com certeza mas só se for num lugar aquecido é que lá fora está um frio de rachar!
São Pedro concordou.
A baronesa ficou num largo corredor onde passavam muitas nuvenzinhas brancas. Um anjinho que rodava à volta dela veio trazer-lhe uma braseira.
-Obrigada lindo bebé, como te chamas?
-Eu sou a alma de uma criança, das muitas para quem a senhora fazia muitas botinhas no Natal.
A baronesa espreitou o largo corredor a ver se São Pedro já a viria atender… Por ali passava um cortejo de virtudes: os santos, os ascetas, os sacrificados com mortificações, aqueles que apresentavam os joelhos gastos pelas orações… Era óbvio que toda aquela gente lhe iria passar à frente…
Com o sobrolho carregado e gestos castigadores, São Pedro entra no corredor e chama o anjo de serviço e diz-lhe:
-Leva a baronesa para o Inferno!
As nuvens brancas abrem-se numa enorme cratera para lançarem a baronesa para o Diabo!
Nisto, vários anjinhos, todas as crianças a quem a baronesa fizera milhares de botinhas e a quem dera assistência na Obra, fizeram uma roda à volta da baronesa que volteava no espaço, tal como numa valsa estonteante…
A baronesa perguntava:
-E agora?
-Estás presa ao céu por milhares de botinhas que tricotavas e oferecias às crianças pobres pelo Natal. É que tudo o que se faz de bom a favor dos outros fica registado no livro da vida e nada se perde.


8º CONTO - O NATAL DA TIAApertou o blusão de cabedal preto e saiu do apartamento. Chovia. Na noite escura e mal iluminada por candeeiros de luz tremeluzente, a figura alta, esguia e vestida de negro de Luisa confundia-se com as sombras. Ao entrar no carro, pousou no banco do pendura o enorme saco que transportava na mão. Não se via vivalma na rua, mas à medida que foi avançando para o centro, a cidade ganhou cor com as lâmpadas coloridas que ornamentavam árvores e postes com os enfeites natalícios. O movimento era praticamente nulo, conduzia lenta e tranquilamente na direcção da casa da tia Magui, relembrando aquela primeira consoada, mesmo decorrida mais de uma década.
Tinha então 14 anos e mal conhecia a tia, que encontrara apenas esporadicamente em criança. Nesse ano, os pais tinham viajado em negócios para Nova Iorque e por lá tinham ficado, para evitar idas e vindas inúteis de avião. Sentia-se acabrunhada, não porque sentisse a falta deles – aliás, nunca celebravam o Natal conjuntamente, nem participava nas faustosas recepções que a mãe promovia, primeiro porque era pequenina, depois porque ia atrapalhar com as suas infantilidades, por último porque era desengonçada – mas porque preferia ter ficado sozinha no seu quarto, como de costume. “Mais vale só...”, repetia para si própria! Comemorar o quê?
Assim, quando Magui abriu a porta encontrou uma adolescente espigada e de cenho franzido, vestida de negro dos pés à cabeça, como se fosse uma carpideira em dia de funeral. Exibindo um sorriso, abraçara-a com emoção: “Há quanto tempo, Luisinha?!” O espanto da rapariga tornou-se evidente, não a reconhecia naquela mulher de aparência tão jovem, mais baixa e roliça do que recordava, envergando uma espécie de sari multicolor, com o cabelo liso e castanho a escorregar-lhe pelas costas. O seu casaco foi prontamente pendurado num bengaleiro sobrecarregado, enquanto era conduzida à sala onde se encontravam outros desconhecidos, que riam e conversavam como se se conhecessem há milénios. Consternada e arrastada pela tia entre os convivas, onde não faltava um gato listado que passarinhava entre todas as pernas, as apresentações sucediam-se, de passagem: “É a Isabel, a vizinha do lado, o primo Zé, a minha amiga Gracinda...” enquanto repetia “é a Luisinha!”. Ela acenava com a cabeça, meio tonta, com a certeza que não se lembraria de nenhum nome, tentando sorrir, vagamente ciente do contraste entre as duas irmãs.
No palacete raramente se ouviam vozes mais elevadas, mesmo em dias de festa - uma eventual casquinada de conveniência, de bom tom. A mãe tinha uma voz de gelo, metálica, mas quase inaudível, mesmo a tratar com a criadagem: “Maria, faça a mala e vá-se embora. Já!” Ou quando se dirigira a ela, ainda há poucos meses: “Uma vez que a menina não tem a mínima noção de cor, faça-me o favor de se vestir sempre de preto, sem ofender o bom gosto de ninguém!” Muito menos qualquer daqueles indivíduos seria convidado a pisar o hall de granito cinza, nem seria a mãe a cozinhar aquele jantar simples mas apetitoso - no cardápio dela só constavam receitas sofisticadas com pomposos títulos afrancesados. Quase conseguia vislumbrar o seu ar de horror e o comentário viperino que se seguiria, na sua voz gélida: “Que fauna... digna de um Zoo!”
À meia-noite, Magui sentou-se no chão junto ao galho prateado que fazia as vezes de árvore de Natal e começou a distribuir os embrulhos que se encontravam debaixo, enquanto chamava um por um todos os presentes, que os abriam com alegria e agradeciam simpaticamente, mesmo desconhecendo o dador. Luisinha ultrapassou o tédio de receber mais uma Barbie de colecção (longe de alguma vez ter brincado com bonecas), mas rebuçados, bombons, bolachinhas e compotas não faltaram, a par de um quadro, um livro e uma camisola de malha vermelha, sem referir as pegas de cozinha em crochet que couberam a todos, supostamente da lavra da vizinha velhota. Só regressou ao palacete vazio no dia seguinte, carregando consigo esses “tesouros”, mas o que guardou na memória foi o Natal mais feliz de sempre!
Agora, tanto tempo volvido, sabia onde a magia do Natal acontecia e onde nunca deixara de voltar. Ao tocar a campainha, o sorriso alegre de Magui já não a surpreendia, nem que a chamasse de Luisinha e o abraço foi inteiramente correspondido. Após pousar o saco no chão, despiu o blusão preto e, exibindo uma camisola vermelha, retirou do bolso um barrete condizente, que pendurou no cocuruto, declarando: “Este ano, o Pai Natal sou eu!” E riram-se ambas, enquanto entravam na sala de braço dado, onde os amigos de sempre as aguardavam...

9º CONTO - O SORRISO (Transpirar de uma memória)

Aumentou o som do gira-discos para que todo o pelotão ouvisse Jingle Bells, naquela véspera da Consoada. Ordenou, de seguida, que verificassem as armas e munições, e distribuíssem a ração de combate pelos bolsos dos camuflados. Ao pescoço pendurou a máquina fotográfica, companheira de andanças, guardadora de memórias.
Com o nascer da manhã, cinzenta e cacimbeira, chegara a ordem para avançarem ao encontro da sanzala à beira da lagoa, bombardeada de véspera por ser tida como abrigo do inimigo. Natal sem presépio seria o seu, vivido a verificar danos, registar baixas infligidas, marcar a sanzala como território vencido e domado.
Ultrapassada a ourela da mata, caminharam separados pelos contornos das árvores, dobrando-os como esquinas cortantes num andar penoso, procurando pisar com cuidado pedaços de chão não estalantes para que o solo se não fizesse ouvir, denunciando-os. Ele ia pensando que este, como todos os outros passos que até ali o tinham levado, mais não eram do que um procurar da inutilidade, de um obstinado e cego adiar do que a História iria escrever.
Chegados, a névoa confundia-se com o fumo que subia da terra queimada, das lavras ardidas, das cubatas em destroços. A paisagem já não era verde, como a deixada para trás, mas turva. Diante dos olhos teve ele, surpreso, gente a chegar do outro lado da lagoa: crianças, mulheres e homens idosos. Vindos de mais atrás, ouviu latidos e cacarejos. Baixem as armas! Ordenou.
Com uma criança pela mão, um dos velhos, quiçá o soba, caminhou, lento e desconfiado, ao seu encontro. Bom dia, disse. Bom dia, respondeu-lhe, perguntando a seguir: onde estão os homens novos? Aqui não tem, já não tem deles faz muito tempo, foram na guerra da guerrilha, anunciou a voz do velho. Na guerra?! Então, velho, o que aconteceu aqui? Aqui, senhor, só nos mandaram bombas, nos queimaram as lavras, secaram a terra e nos fizeram fugir com os cães, os cabritos e as galinhas. Não teve guerra, não senhor. Os soldados de matar só chegaram agora. E mortos? Não tem deles, senhor.
Franziu-se-lhe a testa, entregou-se ao esforço de tentar compreender o que acabara de ouvir. Soldados de matar…!? Nisto estava, com o pensamento querendo correr para longe, quando a criança se soltou do velho e lhe puxou por uma das mãos. Tenho fome, mais velho da tropa, me dá comida. O dizer do menino entrou, turbulento, por ele adentro, fazendo-o cerrar os punhos e levá-los ao peito.
Num repente esvaziou os bolsos, deitando para o chão o que lhe restava da ração de combate. A criança atirou-se a uma embalagem. Pediu-lhe, por gestos, que a abrisse, levou à boca o que dentro dela saiu, trincou e logo fez o mais lindo sorriso, com uma mosca pousada na ranhoca à mistura, que ele alguma vez vira, sorriso acompanhado por um tagradeço amigo! Deste-me o meu presente de Natal, pensou sem o dizer. Guardou o riso na máquina das memórias. À noite dormiu ao relento. No céu apenas brilhava uma estrela com ar de andar à procura, e um fulgor diferente do que era hábito ver-se por ali luzir.
Aquele sorriso transformou em paz a agitação do seu interior, mudou-o para sempre, já não era o que nunca fora nem quisera ser, um soldado de matar, mas um amigo.
Regressado ao aquartelamento o seu pelotão foi autorizado a ajudar na reconstrução da sanzala. Semanas passadas o quimbo ajeitou-se. Reergueram-se as cubatas, os animais regressaram ao seu andar à solta, mulheres e homens idosos estavam de novo entregues ao amanho das lavras, as crianças brincavam, a velhice dos homens voltara a ser aquecida pelo sol, as mandioqueiras voltaram a crescer, bem como o caxinde. O soba podia, de novo, sentar-se à porta da cubata. Pela lama das franjas da lagoa já não corriam pés em fuga. Ele terminou o tempo de andar fardado.
No avião que o levou de regresso à terra da sua casa distante, releu a carta escrita à mulher no dia de Natal. Nela lhe contara a festa de despedida na sanzala da lagoa, e que tinham dado o seu nome a uma mandioqueira. Depois, tirou do bolso a fotografia do sorriso e falou-lhe: tagradeço amigo!

4 comentários:

ematejoca disse...

Pronto, levantei-me cheia de curiosidade e vim ler os 9 contos de uma vez, contudo vou voltar para os ler, pelo menos, uma vez mais, devagar, muito devagarinho.

Quero uma vez mais louvar esta tua iniciativa, minha cara Licas, que está muitíssimo bem organizada.

Desejo-te um domingo de advento muito feliz.

Teté disse...

Já li todos de enfiada, e embora à partida tenha um do qual gostei mais, vou fazer como a Ematejoca: reler com mais calma, para ponderar melhor na votação. :)

Beijocas e bom Domingo para ti!

Canduxa disse...

Já os li todos mas só farei a minha escolha amanhã....vou ter de os ler novamente....são muitos!

beijinhos

Canduxa

lusibero disse...

Li todos os contos, que acho de valor literário.
prendeu-me mais a atenção este conto 9, "O SORRISO", precisamente peo sorriso do narrador ommnisciente.
Narrativa de 3ª pessoa, narrador na posse do conhecimento dos factos e dos sentimentos das personagens...narrador, sem dúvidas nenhumas, omnisciente.
"Ao pescoço pendurou...(...) guardadora de memórias"(...)

As localizações de ESPAÇO e TEMPO...Estão interligadas e são paralelas, na medida em que ,tanto o espaço como o tempo usam o mesmo campo lexical e semântico, relacionado com a "guerra":bombas, camuflados, terra queimada, bombardeamentos, inimigos...
Quanto ao espaço, em particular, atreverme-ia a dizer que se trata de ÁFRICA, numa das antigas EX-COLÓNIAS, no tempo da guerra colonial: "sanzala, cubata,cacimbeira..."
Do meio do caos e da destruiçao emerge o HUMANISMO próprio DA QUADRA NATALÍCIA...
BOM NATAL à administradora do blog, a quem endereço um louvor pela iniciativa e ao autor do texto, que, se me não engana a sensibilidade, identifiquei...dentro de mim...
BEIJOS
Mª ELISA