segunda-feira, 16 de março de 2009

16ª HISTÓRIA (conclusão) e 17ª HISTÓRIA

Olá Amigas, Boa Noite!

Cheguei do meu fim de semana na "Reforma Agrária". O tempo esteve espectacular e bem quentinho, apenas com algumas rajadas de vento no fim da tarde de sábado.
Já se ouviram por duas vezes as sirenes dos bombeiros alertando para "Fogo".
Começamos cedo !!!!
As flores e árvores estão todas a rebentar e os passarinhos já marcaram passagem para o nosso país.
Eis que a Primavera se aproxima!

Tal como prometi, vou continuar a história 16 e contar-vos mais outra, apenas para acabar o ciclo de Vila Nova de Gaia.


Então a História do Luis ...

Nos dias seguintes aproximei-me muito dele e tentei perceber se queria mesmo ser ajudado, ou se tudo não passou de um momento de fragilidade após a notícia da morte do colega.
Pareceu-me sincero!
Disse-lhe que nada podia fazer sozinha, sem ter pelo menos um dos pais connosco. Ele hesitou - quase desistiu – mas tentei explicar-lhe que ele iria precisar de apoio psicológico e mesmo familiar, sem nunca desvalorizar o meu e o dos colegas, que diga-se, começaram a zelar por ele como que de um irmão se tratasse.
Depois de algumas pausas e retrocessos, acabou por concordar que eu falasse com a mãe. Assim fiz.
Era uma senhora simples, extremamente meiga e bem educada, que não só compreendeu o problema do filho, como se disponibilizou para fazer tudo e gastar tudo o que tinha para salvar o seu filho – o Luís.
Pôs apenas uma condição: Para já o marido tinha que ficar de fora da situação. Resolvemos com o acordo do próprio jovem encontrar um psicólogo que lhe permitisse “dar a volta”, com a nossa ajuda.
O rapaz foi à 1ª consulta acompanhado pela mãe e ficou muitíssimo entusiasmado. Depois quis falar também comigo para delinearmos formas de interacção e também para prepararmos o Luís para um encontro “inevitável” com o pai.
Concluímos todos que a grande pedra na vida do Luís era exactamente o pai, não porque o tratasse mal, mas porque o queria demasiado apertado e condicionado com os seus horários e vontades.
O senhor, sendo funcionário da RTP, procurava aí “encaixar” sempre o filho, não lhe dando tempo para conviver, falar, rir, fazer desporto … Não podemos esquecermo-nos que o rapaz tinha então 20 anos.
Tudo estava a correr muito bem, o rapaz seguia atentamente as indicações do psicólogo e formou com o seu grupo de escola um núcleo muito simpático e diga-se “curativo”.
O Psicólogo aconselhou que dada a sua compleição física e a enorme vontade que ele demonstrava em praticar vela, deveria ser esse o primeiro grande passo de independência do Luís. Porém para isto era necessário que o pai soubesse o que se passava, até que se por um lado era necessário tempo para a prática de desporto, por outro era necessário arcar com algumas despesas.
Chegou a hora!
Fizemos uma reunião – pai, mãe, Luís, Psicólogo e eu.
Inicialmente tudo corria muito bem. A atitude tomada foi de compreensão e de querer ajudar, mas … Avançou logo com a sugestão: “Eu compro um barco e então vamos os dois praticar vela”.
Dificilmente consigo descrever a reacção de desespero e de raiva do Luís.
Pois se era exactamente o que ele mais queria … Tornar-se independente do pai, poder afastar-se da figura que o subjugava.
Todos tentamos explicar-lhe que essa não seria a solução, mas nada o demoveu. Ou o Luís velejava com ele ou podia perder a ideia de praticar este ou qualquer outro desporto.
A situação arrastou-se inabalável por tempo indeterminado.
A mãe não podia interceder, porque o senhor até se tornou agressivo com ela.
Se até então era controlado, o Luís passou a ser “atrelado”.
Até que um dia o Luís fugiu …
Nunca mais soube dele, mas sempre que recordo este facto lembro-me daquele rosto lindo, lindo, mas triste e só, a pedir-me ajuda do fundo da turma.
Houve colegas que andaram durante uns tempos pela noite e por locais de droga para o encontrarem, mas infelizmente, pelo menos até ao final do ano lectivo o Luís não voltou a aparecer.
O telefone da mãe foi alterado.
Eu saí da Escola.
Mas ainda hoje recordo o Luís e gostava muito saber dele e da sua doce mãe – a D. Rosa.

HISTÓRIA 17

Dia 4 de Dezembro de 1980.

Aula de Matemática de uma das turmas do Curso Nocturno
As férias do Natal aproximavam-se. Estávamos a dar os últimos testes.
Não sei exactamente as horas, mas lembro-me que reinava silêncio absoluto dentro da sala de aula. Era noite cerrada e eu tinha acabado de entregar os enunciados.
De repente sinto que no corredor, junto à porta da sala alguém soluçava. Abeirei-me e vi a funcionária daquele piso a chorar copiosamente. Perguntei-lhe se estava bem, se precisava de alguma coisa.
Redobrou o choro e imperceptivelmente disse que tinha havido um acidente de aviação e que tinha morrido o Dr. Francisco Sá Carneiro, o Engº Adelino Amaro da Costa e acompanhantes. Fiquei sem palavras …
Entrei e comuniquei aos alunos o sucedido.
O que se passou dentro da turma é indescritível e apanhou-me desprevenida: Os alunos aos saltos, batiam palmas, como se lhes tivesse dado um prémio.
Faltou-me referir, que os políticos em questão, vinham para o Comício de Encerramento da Campanha Presidencial do Dr. Soares Carneiro.
O Dr. Sá Carneiro, fundador da Partido Social Democrata era então primeniro ministro As eleições realizar-se-iam no dia 6 de Dezembro.
A reacção dos alunos foi pois um acto político, contra alguém que lutava por uma causa diferente daquela que a maioria deles defendia. Não esqueçamos que o 25 de Abril se tinha dado apenas há 6 anos e ainda estavam muito bem marcadas as fronteiras entre a direita e a esquerda e os amores e os ódios muito vincados.
Dei dois valente berros aos alunos e obriguei a que todos se sentassem.
Interrompi o teste e fiz notar que não admitia uma reacção daquelas, não porque fosse a favor ou contra esta ou aquela ideologia, mas porque estava em causa a perda de vidas humanas em circunstâncias dramáticas. Todos temos o direito à vida e ao respeito, disse, e como tal como educadora e defensora dos direitos e dos valores humanos, não permito reacções menos respeitosas.
A aceitação das minhas palavras, fazia-se com dificuldade e muito lentamente.
Bateram à porta! Uma das funcionárias veio ler uma determinação emanada do Ministério da Educação que obrigava ao fecho imediato das escolas.
Nesse momento senti-me aliviada, porque estava no meio de 20 alunos, maioritariamente de esquerda (a avaliar pela conduta tomada) que de um momento para o outro poderiam criar uma situação de sublevação grave e irreversível.
Mandei-os sair ordenada e rapidamente para o exterior do edifício.
Bom … ultrapassada esta etapa, outra se aproximava: Havia agora que regressar a casa.
Para tal e porque dava boleia a umas colegas até à Rua de Santa Catarina, tinha obrigatoriamente que passar pela baixa, mais propriamente pela Rua de Sá da Bandeira, bem próximo do Coliseu do Porto, local onde deveria decorrer àquela hora o citado comício.
Quando cheguei a Sá da Bandeira apanhei um autêntico banho de uma multidão desesperada que descia a Rua de Passos Manuel, vinda em histeria após ter recebido a notícia do desastre dentro da casa de espectáculos completamente lotada.
Julgo que nunca tive tanto medo!
Por momentos ficamos paradas, dentro de um carro, completamento submerso pela multidão aos gritos. Aos poucos, depois da polícia chegar, calmamente fui conseguindo “furar” e fugir para casa. Que susto !!!!

Outras histórias virão em breve!

9 comentários:

BC disse...

A história do Luís é comovente, e ainda por cima não teve sequer um final feliz, com o seu desaparecimento.
A Licas deve ter pensado muitas vezes no seu paradeiro concerteza, ou se algo de muito grave lhe poderá ter acontecido, quem sabe onde parará hoje o Luís, se estará vivo ou morto, embora nos custe poderá ter acontecido.____________________

Quanto a Sá Carneiro soube à noite na altura do acidente, o Diogo era pequeno e lembro-me perfeitamente de estar no quarto com ele a brincar e com o rádio ligado ouvir a notícia.
"O Primeiro Ministro de Portugal acaba de falecer num desastre de avião, com ele seguia Amaro da costa,Snue Abecassis.....tal e qual como se tivesse sido ontem.
Beijinhos
Isabel

Teté disse...

Faço apenas uma pequena correcção: as eleições eram realmente dentro de poucos dias, mas o candidato presidencial era Soares Carneiro, apoiado por Sá Carneiro (PPD), pelo CDS e pelos monárquicos. A coincidência era terem os dois o mesmo apelido...

Beijocas, Licas!

Licas disse...

Teté

Tem toda a razão. O candidato era realmente o Dr. Soares Carneiro. o Dr. Sá Carneiro era então Primeiro Ministro e vinha realmente para o encerramento da Campanha Eleitoral do Candidato. Muito obrigada pelo reparo que vou desde já corrigir.
Um abraço
licas

Joana Carvalho disse...

Passe no meu espaço, tem um prémio para si. Quanto ao nosso cafezinho, tá complicado...ainda não será amanhã, pois tenho um trabalho para entregar na quinta (que estou aflita), outra na sexta que até já tá pronto...e uma frequência na sexta...por isso...vai ser complicado! Mas não desisto...pois quero mesmo tomar um cafezinho consigo. Mais tarde ou mais cedo, havemos de ter tal oportunidade. Beijinho grande...

Sônia Brandão disse...

Triste final na história de Luís. A
falta de compreensão do pai pode ter destruído a vida desse rapaz. Pode ser também que longe do pai ele tenha feito as coisas que desejava. Fica a dúvida...
bjs

Artista Maldito disse...

Olá Isabelinha

Recordo-me muito bem, um acidente de que nunca será desvendada a causa, provavelmente. A Snue tinha sido casada com um primo do meu Pai, boas pessoas.

E vou a correr porque quero aproveitar ainda a manhã para fazer umas leituras na FLUP.

Beijinhos
Isabel

gisela disse...

ola vim espreita o seu blog e gostei muito! gosto de me dar com pessoas mais velhas que eu,pelo menos tem algo a ensinar e a transmitir. gostava muito de uma visita ao meu blog,e espero que goste. beijinhos

Tite disse...

Pois...
As histórias não têm que acabar sempre bem.
E que tal sonharmos e pensarmos que o Luis se libertou das grilhetas ao fugir do controlo cerrado do pai e quem passou a ter pesadelos foi este quando viu ao que levou a sua atitude para provocar o comportamento desesperado do Luis?
É nisso que eu acredito já que o fim da história ficou em aberto.

Quanto à outra história e apesar de eu também ser de esquerda, nem por isso gostámos da notícia com todos os inconvenientes que a mesma implicou psicologicamente nas mentes dos cidadãos deste país em vésperas de eleições.
Felizmente as sondagens confirmaram-se e o acidente não alterou em nada o que se perspectivava.

Obrigada uma vez mais amiga Licas

MAIKATZE disse...

Não fostes tu, que confudiste as duas Teresas, Licas.

A tradução de "Gute Mädchen kommen in den Himmel, böse überall hin" é "As raparigas bem comportadas (boas raparigas) vão para o céu, as outras vão para todos os sítios"

Boa noite, Licas!