quarta-feira, 25 de março de 2009

19ª HISTÓRIA

Era o dia 9 de Fevereiro de 1981.

O meu filho fazia 10 anos.
Eu raramente faltava às aulas, mas no dia do seu aniversário costumava fazê-lo.

Porém desta vez era impossível porque às 14h30min tinha uma reunião à qual não podia nem devia faltar.
Para minimizar o facto de não poder dedicar-lhe a atenção costumada, disse ao miúdo que convidasse um amiguinho para almoçar.

Levei-os até Famalicão, não sem previamente me ter aconselhado com as colegas da terra, sobre o restaurante mais aconselhável para eu ir com as crianças.

Assim, perto das 12h30min, entramos no restaurante e pedimos o prato característico desta região - Rojões à Moda do Minho - muito apreciado pelos três.

Serviram-nos muito bem e rapidamente, tal como eu tinha solicitado e a conversa fluiu agradável e alegre.

Quando chegou a hora de pedir a conta a empregada disse-me que o almoço estava pago.
Perguntei como, mas a senhora recusava-se a dizer.
Respondi que não aceitaria porque não costumava fazê-lo de pessoas desconhecidas. Depois de muito insistir, ela chamou uma colega, que de uma forma muito educada e até submissa me disse que eu era a Directora de Turma da filha e que tinha o maior gosto em presentear-me.
Reagi negativamente, mas a senhora não desarmava, deixando-me completamente embaraçada com a sua insistência.
Por vergonha condescendi.

Perguntei-lhe propositadamente e só nessa altura, quem era a menina. A Mãe disse-me ser a Maria José do 6º F e perguntou-me qual o seu desempenho nas aulas.

Respondi-lhe que dentro da turma fraca em que se inseria, até podia considerar-se o seu aproveitamento satisfatório, mas que teria de continuar a estudar e modificar o seu comportamento agressivo e por vezes um tanto desajustado.

- Posso dizer que esta aluna era sensivelmente mais forte que os outros alunos, vestia sempre de ganga e usava o cabelo extremamente curto.
A linguagem era um tanto ... forte e as atitudes por vezes muito exageradas.


Agradeci mais uma vez à mãe e saí.

Mal cheguei à escola contei o sucedido à colega do C.Directivo que me tinha indicado o restaurante e ela tranquilizou-me, dizendo que as pessoas de Famalicão gostavam muito de presentear os professores o que não queria dizer que estivessem a pressioná-los em benefício dos filhos.

Sosseguei!

Passados uns dias, comecei a notar que o comportamento da Maria José, se alterou para pior e que não estava a acompanhar a matéria como até aí.
Chamei-a por diversas vezes, verifiquei os trabalhos de casa e conclui que algo se passava.
Repreendi-a e disse-lhe que a continuar assim iria certamente baixar as notas e se arriscaria a reprovar.

Todos se sorriram e eu perguntei porquê.
Um rapaz, mais destemido, disse que ela andava a comentar com os colegas que não valia a pena estudar ciências e matemática, porque a mãe tinha oferecido um almoço à professora e ela (eu) agora não tinha coragem de a reprovar.

Muito zangada disse-lhe: Olha Maria José, se é isso que pensas estás muito enganada, porque a partir de agora ainda vou exigir mais de ti e se não corresponderes podes ter a certeza que te chumbo.

Ela sorriu-se em descrédito e continuou a manter mesma postura.
No 2º período ainda manteve o 3 a ciências, mas baixou para 2 a matemática. Chamei a mãe, contei o que se passou e repeti-lhe exactamente o que tinha dito à filha.
A senhora com a mesma humildade e compostura, agradeceu-me que o fizesse porque ela era uma menina muito rebelde e precisava de uma lição.
Claro que tentei tudo por tudo para não levar por diante esta decisão, mas a miúda desafiou-me até ao fim e o inevitável aconteceu.
No final do ano teve negativa a matemática, ciências e português, o que a levou a ficar retida.

Custou-me muito, mais pela mãe do que por ela, mas a minha consciência não me deixou dúvidas.
Mais infeliz fiquei, quando no ano seguinte soube, que ela tinha abandonado de vez a escola e era então empregada do referido restaurante.

Ainda há mais outro episódio com esta aluna, mas ficará para outra vez...

6 comentários:

ematejoca disse...

Gosto muito de ler as tuas histórias, Licas.
Pensei sempre, que a minha amiga professora era tão agarrada e amiga dos alunos por ser solteira e não ter filhos. O que não é o teu caso ___ e mesmo assim tu tens a mesma amizade por os alunos como ela.

Dia feliz!

BC disse...

Licas já vim aqui várias vezes, mas não consegui entrar porque as letras não apareciam, e não foi só no seu.
Estou a escever vamos lá ver se agora passa.
Mais uma história de uma aluna que seguiu um destino que estaria marcado e não por culpa da nota amiga.
Hoje mais descansada vou dando umas voltitas curtas.
Beijinhos
Isabel

gisela disse...

ola amiga licas. passei para uma visita.esta td na msm e eu continuo com a minha neura,nao tenho remedio... bjinhos

Teté disse...

Pois é, a mãe ofereceu o almoço por gentileza, a miúda assumiu que com isso tinha "comprado" a professora...

Os miúdos (e às vezes até os adultos) tem uma certa tendência a tirar conclusões precipitadas!

Beijinhos, Licas!

Sandokan disse...

Certamente que o caminho para a felicidade não é fácil de encontrar. Porém, há uma frase célebre de Aristóteles com a qual eu concordo plenamente: "A felicidade é feita por nós próprios". Assim, se desejamos encontrar a felicidade, nós é que temos de construí-la, tentando criar um mundo (interior e exterior) que nos satisfaça mais verdadeiramente. É importante estarmos em harmonia connosco próprios, fazermos aquilo que gostamos, que realmente nos faz sentirmo-nos bem (como por exemplo: ouvir música, ler ou apenas relaxar), nem que seja, apenas, uma hora por dia, bem como estarmos rodeados de pessoas que nos confortam, que nos dão carinho e uma palavra amiga e tentarmos, ao máximo, fugir de ambientes que nos deprimem e nos stressam. Mas, não podemos estar passivamente à espera que a felicidade venha até nós ou que alguém a traga simplesmente. A receita para a felicidade é simples, nós é que a complicamos... É importante lutarmos pela nossa felicidade, mas, igualmente, pela dos outros, uma vez que da deles depende a nossa. Por isso, se não custa, assim, tanto ser felizes do que é que estamos à espera?! É que a vida é demasiado curta para sermos preguiçosos...

Tite disse...

Licas,

Cada vez gosto mais de ti.
Eu actuaria exactamente como tu.
Chamam-me muito intransigente mas acho que na educação da crianças e adolescentes eles precisam de ter em devida conta e bem marcadas as situações de justiça.

As marcas ficarão para sempre nos seus corações. Se forem bem formadas mais tarde irão lembrar-se destas passagens da sua vida e valorizá-las-ão

Abraços