quarta-feira, 4 de março de 2009

10ª E 11ª HISTÓRIAS

Estas duas histórias referem-se à mesma turma que citei na 9ª história.
Lembram-se?
HISTÓRIA 10 -

Um dia ...
Estava eu a atravessar uma fase de grande esgotamento que me fazia por vezes perder o equilíbrio.

Mas, teimosinha como sou e fiel aos meus princípios...

Como nunca era costume dar as aulas sentada, para lhes poder imprimir uma dinâmica muito acentuada, passeava-me explicando a matéria, sobre o estrado (usava-se na altura) junto ao quadro, ou pelo meio dos alunos.

Num dos dias de maior cansaço, procedi como sempre. Levantei-me, entusiasmei-me com a matéria e fui-me aproximando das escadas do estrado.
A dada altura, não sei se pelo entusiasmo, se pela tontura, caí desamparada e vim bater com as mãos com toda a força na carteira do aluno que estava na minha frente e que calmamente tirava as suas notas.

Quando já no chão olhei para ele, o seu ar de espanto e até de medo provocou-me uma enorme vontade de rir, mas reparei que a turma estava como sempre num enorme silêncio.

Sei que ainda tive tempo de lhes dizer: Riam-se à vontade, porque eu também quero muito fazê-lo.

Claro está que se ouviu uma enorme gargalhada, que eu fui deixando de sentir porque desmaiei por momentos.

Quando acordei, lembro-me de 30 olhos esbugalhados sobre mim. Levantei-me e depois de recuperar um pouco, consegui rir-me, rir-me ….
Um dos alunos ainda disse: “Bolas, agora que temos uma que nos compreende …”.

Sosseguei-os.
Recompus-me e continuei a aula.
Creio que foi mais uma situação que estreitou a nossa relação e cumplicidade.

HISTÓRIA 11

Um dia os alunos saíram para o recreio. Eu fiquei na sala porque tinha aulas a seguir com eles e aproveitei para dar mais uma olhadela na matéria.
Tocou, os alunos entraram e reparei que um vinha muito branco e com ar de sofrimento.
Perguntei-lhe se estava bem, se precisava de alguma coisa.
Disse-me que não.
Momentos mais tarde, já no decorrer da aula, olhei para ele e vi-o deitado sobre o aluno do lado. Voltei a perguntar-lhe se queria ir lá fora com um colega.
Não me respondeu, mas o colega tentou olhar para ele e ao mexer-se sentiu-o cair sobre a carteira.
Parecia morto!
Aproximei-me logo e chamei o funcionário. Deitamo-lo no chão e quando o funcionário chegou ele estava um pouco recuperado e pode sair acompanhado.
Perguntei se alguém sabia o que lhe tinha acontecido.
Houve alguma troca de olhares, até que um, com bastante respeito e até amedrontado, disse que no intervalo o aluno tinha levado um pontapé nos órgãos genitais.
Expliquei-lhes a gravidade que uma situação destas podia acarretar, o cuidado que deviam ter e aproveitei para dar-lhes uma aula de cariz sexual e também de civismo.

Mas, o que me ficou desta passagem, foi a dignidade com que os alunos encararam o problema, sem risadas fortuitas, sem palavras indecorosas, procurando que eu não me apercebesse e não ficasse contrariada.

Muitos anos mais tarde encontrei dois gémeos desta turma que estavam a entrar para a Faculdade de Engenharia um e o outro para Economia.

Senti-me feliz, porque me cumprimentaram!

Tenho a certeza que o voto inicial de confiança que lhes dei, a atenção que lhes dispensei e a cumplicidade criada, os fez acreditar que ainda valia a pena tentarem ser melhores.
Os meus próprios colegas se admiraram.

Hoje passados 35 anos, julgo que o que me ajudou, foi a minha inexperiência e a vontade de evoluir pedagogica e tecnicamente por mim própria, sem a influência de terceiros.

Tive sorte!
Correu muito bem!

17 comentários:

Sónia disse...

Olá Licas. Pois, respondendo ao que me perguntou, no ano de 1984 estava eu a nascer. Andei na fabulosa Didáxis! O melhor que se pode pedir (não desvalorizando outras escolas). É uma escola cooperativa que prima não só pela boa educação, mas também pelos valores que incute e pela participação na vida social das comunidades envolventes.
Gosto das suas histórias, e olhe que você realmente cativou estes alunos. Deve ser do maior prazer que o seu trabalho pode dar.
Parabéns!!

Clarissa Oliveira disse...

Olá, sempre tive sonho de trabalhar com crianças, fiz curso de recreacionista, trabalhei como voluntária com crianças carentes, mas a vida às vezes nos leva para outros caminhos. Então quando vi tinha meus três amores e entendi que estava aí minha responsabilidade como educadora...tinha três pessoas sobre meus cuidados que exigiam de mim tempo e dedicação quase integrais! E aprendo e amo muito tudo isso!
Amei sua história e me inspiro em pessoas como você! Beijos...

ematejoca disse...

A Licas mereceu muito bem o selo das "Mulheres Resolvidas". Sinto-me feliz!

Patti disse...

São esses laços entre professores e alunos que penso, infelizmente, cada vez menos existirem nos dias de hoje.

Tite disse...

Os meus Parabéns pela grande realização pessoal e profissional que representam estas histórias da vida real de uma Professora com P grande.
Adorava que todas as que trabalham hoje com crianças procedessem de igual modo.
Hoje, com 62 anos só me lembro dos meus professores os que ensinaram a sério, os que se faziam respeitar, os que ensinavam por amor à profissão que tinham escolhido.
Abraços cara amiga

Joana Carvalho disse...

É de realçar o facto de ter cativado os seus alunos, a ponto de se interessarem em ser melhores e simplesmente não desistirem por não acreditarem neles... Infelizmente, como diz Patti, os laços saudáveis que pode haver entre professores e alunos são cada vez menos.
Beijinho grande que bem o merece!

Licas disse...

Obrigada às novas amigas Patti e Tite por terem vindo ao meu cantinho de amizade e partilha.
Espero encontrá-las mais vezes. Irei continuar com as minhas histórias. Obrigada também à Sónia, Clarisse e Joana. Já nos conhecemos, mas adoro as vossas visitas.
Bem-Hajam!
Licas

Só uma pergunta Tite - Qual o blog dos seus devi seguir?

Artista Maldito disse...

Bom Dia Licas

Gostei imenso destas duas histórias. Da primeira dei uma risada. Não sou mazinha, mas aquele tombo está tão bem contado que foi como se o tivesse presenciado. Pois, mesmo esgotadas somos teimosas:)

Claro que a Isabel é um exemplo de encorajamento a tantos professores que exercem a sua profissão com honestidade e entrega.

Um beijinho e até amanhã
Isabel

Licas disse...

Olá Isabel
Como me conhece viva e a cores, deve ter "visto" o tobo também assim, mas senti-lo ... A cara de riso dos miúdos... a preocupação ao mesmo tempo espelhado no rosto e ainda o facto de não me quererem decepcionar, deu-me a mim uma vontade de rir, que ainda hoje ...

Bom ... Que tal vai essa saúde e disposição?
Espero vê-la em breve
Beijinhos
Licas

BC disse...

Licas voltei, não tenho disposição para ler.
Talvez amanhã, mas prometo que volto.
Foi um dia muito complicado o de ontem, depois conto-lhe, quando estiver com a cabeça mais desanuviada, há coisas que parecem que não aconteceram.
Já publiquei porque já estava na "linha de montagem", de contrário não seria tão cedo seguramente.
Vou passar por um ou outro blog só.
Beijinhos amiga
Isabel

Tite disse...

Cara Licas,

Apesar de não nos conhecermos ao vivo e a cores é como se isso fosse verdade.
A sua exposição dos assuntos dá-nos uma visão real como acima já disse.
Nunca fui Professora em Escolas, mas sempre adorei ensinar quem gosta de aprender que é bem diferente da sua situação.
Prezo-me de ensinar como gostaria de ser ensinada, considerando o melhor método e saltando os obstáculos que encontrei no meu caminho de aluna. Resulta meeeessmo!!!

Quanto ao meu blogue que lhe aconselho a acompanhar é o MaMaRiSo

http://taobomseravo.blogspot.com/

onde tenho o seu linkado e onde transparece a minha sensibilidade de Avó/Mestra da vida dos futuros seres que me dão alegria de viver, as minhas netas, situação semelhante à que a cara amiga Licas vive ou revive com os seus netos.

Abraços amistosos

Tite disse...

Rectifico,

Futuros seres não, porque já são uma realidade. Futuros no sentido de Seres Humanos Maravilhosos, porque ainda em formação.

Desculpe a atrapalhação. Às vezes com a pressa saem-nos erros desta dimensão.

CarlaSofia disse...

Adorei estas duas histórias
muitos beijinhos para si e bom fim de semana.
universosquestionaveis

Viviana disse...

Olá Isabel,

Gostei muito e achei muito interessante, esta forma de ir partilhando conosco as suas experiências como Professora.

Continue.

Obrigada.

Um abraço

viviana

Artista Maldito disse...

Olá Licas

Trago-lhe uma orquídea neste Dia Internacional da Mulher.

Bom Domingo e um Beijinho
Isabel

BC disse...

Que dia da mulher sejam todos os dias.
Beijo
Isabel

Sandokan disse...

Sempre quis um amor

que vivesse a felicidade

sem reclamar dela ou disso.

Sempre quis um amor não omisso

e que suas estórias me contasse.

Ah, eu sempre quis um amor que amasse.