sexta-feira, 27 de novembro de 2009

MENINO ESTEVE 11 DIAS NO METRO DE NOVA IORQUE


Este foi o título de uma notícia de ontem do Jornal de Notícias.
Começava assim:
"Francisco, de 13 anos, sofre de Síndrome de Asperger, doença que afecta as capacidades de comunicação .... Dormiu em carruagens ... comeu chupa-chupas e outros alimentos, nunca comprados na estação. Nunca pediu ajuda a ninguém, o que especialistas dizem ser comum devido à sua patologia ..."

Porque a Educação Especializada, é a minha área de formação, considero importante falar desta doença que tardiamente é diagnosticada e acompanhada, devido à falta de conhecimento por parte dos profissionais, nomeadamente dos professores e educadores.

Embora as pessoas portadoras desta patologia, não tenham um atraso significativo no
desenvolvimento cognitivo, é importante que a criança receba educação especializada o mais cedo possível para auxiliar o indivíduo a contornar os problemas de comportamento que apresenta e também para ajudar a direccionar os campos de interesse e de estudo da criança, evitando assim que ela cada vez mais se distancie dos padrões da normalidade.

Esta síndrome parece representar uma desordem neurobiológica que é muitas vezes
classificada como uma Pervasive Developmental Disorders (PDD). É caracterizada por desvios e anormalidades em quatro amplos aspectos do desenvolvimento:

 omportamento não-verbais peculiares que dificultam a interacção social;
 falha no desenvolvimento de relações com pares da sua idade;
 falta de interesse espontâneo em dividir experiências com outros;
 falta de reciprocidade emocional e social.

Apesar de existirem algumas semelhanças com o Autismo, as pessoas com Síndrome de
Asperger geralmente têm elevadas habilidades cognitivas (pelo menos Q.I. normal, às vezes indo até às faixas mais altas) e funções de linguagem normais, se comparadas a outras desordens ao longo do espectro do autismo

Apesar de poderem ter um extremo comando da linguagem e vocabulário elaborado, estão
incapacitadas de o usar em contexto social e geralmente têm um tom monocórdico, com alguma nuance e inflexão na voz.

Crianças com Síndrome de Asperger, podem ou não procurar uma interacção social, mas têm sempre dificuldades em interpretar e aprender as capacidades da interacção social e emocional com os outros.

O mais óbvio marco da Síndrome de Asperger e a característica que faz dessas crianças tão únicas, é a sua peculiar idiossincrática área de “interesse especial”. Em contraste com o mais típico Autismo, onde os interesses são mais para objectos ou parte de objectos, na SA os interesses são mais frequentes por áreas intelectuais específicas. (Bauer, 1995).

Devido ao facto de a Síndrome de Asperger ser relativamente recente no
desenvolvimento da Psicologia e Psiquiatria, muitas das abordagens ainda estão em fase inicial e muito trabalho ainda necessita de ser feito nesta área.

É óbvio para todos, que quanto mais cedo o tratamento começar, melhor será a sua
recuperação. Isto implica tratamento a nível psicoterapeutico, a nível educacional e social.
O Treino de Competências Sociais é um dos mais importantes componentes do programa de
tratamento. Crianças com esta síndrome podem ser ajudadas na aprendizagem social através de psicólogos preparados. A linguagem corporal e a comunicação não-verbal podem ser ensinadas da mesma maneira que se ensina uma língua estrangeira.

Os pais, professores e educadores devem estar atentos às necessidades especiais que estas crianças precisam.
O mais importante ponto de partida para ajudar os estudantes com SA a funcionar
efectivamente na escola é que todos que tenham contacto com a criança, compreendam que a criança tem uma desordem de desenvolvimento que a leva a comportar-se e a responder de forma diferente dos demais estudantes.
Muito frequentemente, o comportamento dessas crianças é interpretado como “emocional” ou “manipulativo” porque não se distancia a forma
como eles respondem diferentemente ao mundo e seus estímulos.



Ao compreender-se, o staff da escola precisa individualizar a sua abordagem para cada uma dessas crianças; não funciona tratá-los da mesma forma que os outros estudantes. (Bauer, 1995)
Retirado de Paulo Teixeira - FPULP


De forma alguma este assunto se esgota nestas linhas. Considera-se apenas como que o "levantar do véu" sobre esta problemática

10 comentários:

ematejoca disse...

Nunca tinha ouvido falar do Síndrome de Asperger, por isso gostei muito de ler este artigo pela sua informação acerca dessa
doença, só não compreendo, o que estava o Francisco a fazer sòzinho no Metro? Aonde estavam os pais?
Se tivesse um filho com o Síndrome de Asperger nunca o deixaria sò seja onde fosse, e não sou nenhuma mãe galinha!

Licas disse...

Pois!
O problema é que o Francisco fugiu de casa porque tinha receio de não ter boas classificações.
Como conhecia bem o metro, refugiou-se lá. Os pais andaram perdidos à procura e a polícia nada fez ... Só com a colocação de cartazes pelos pais, foi reconhecido por um polícia
e .......

É dramático!

paulofski disse...

Olá. Cheguei aqui através do blogue da Teté onde vi o link para este post e assunto. O meu filho tem 15 anos, está no 10º ano, 1º ano do curso profissional de programação e gestão de computadores. Diagnosticado autista de grau ligeiro aos 3 anos, antes já estava a ser acompanhado por especialistas, psicologas e educação especial. Evoliu favorávelmente, com altos e baixos, entrou no ensino regular, foi bom aluno com curriculo escolar próprio. Tinha ele 6 anos quando pela primeira vez ouvi falar no Síndrome de Asperger e toda a informação se encaixava na sua personalidade, dificuldades e capacidades cognitivas. Com satisfação, verifiquei que todas as terapias e empenho estava a ser adequado e foi importante para a sua independencia e educação. Ele quer ser e já é independente há muito tempo, como qualquer outro adolescente. Vai e volta da escola sózinho, sei para reencontrar os aigos e colegas da ex-escola, faz parte de um gupo de teatro de crianças aspies no centro que frequenta desde os 3 anos. Está a ter muitas dificuldades na comunicação e relação com os novos colegas da escola que agora frequenta, essencialmente po falta de compreenção das suas dificuldades da parte deles. Ele tem vontade de mudar isso mas há dias em que a frustração ainda o atormenta. Percebo perfeitamente o comportamento do Francisco, os seus medos, a sua dificuldade de integração, de fazer amigos. Tal como os pais do Francisco, nós e outros pais de aspies, num ou noutro momento já fomos julgados como pais que não sabem educar os filhos. Nada mais errado, mas como não vivemos em função dos outros pouco importa a ignorância alheia e fazemos tudo para lhe proporcionar um futuro e uma vida melhor.

Obrigado pelo artigo.

Licas disse...

Muito obrigada Pauloski
Caro Paulo
É sempre agradável sentir que um artigo nosso serve os interesses, nem que seja só de uma pessoa.
Parabéns pelos pais que foram e continuam a ser, porque crianças destas só alcançam o lugar e desenvolvimento que o vosso filho atingiu, quando têm atrás de si uma família atenta, empenhada e sobretudo aberta às novas aprendizagens. Felicito-os e encorajo-os a continuarem porque amanhã o vosso filho agradecer-vos-á essa atenção. É fácil ser bom pai ou boa mãe de uma criança dita normal, mas de uma criança assim, não é tão fácil, mas quando conseguem têm o dobro do valor.
Diz que ele está a ressentir-se na nova escola, porque os colegas desconhecem as caracteristicas desta patologia. Já pensou em pedir à Directora de turma para, como pai,ter um encontro com a turma e explicar-lhe de uma forma simples mas aberta o que se passa com o seu filho? Será que a própria professora está informada?

Não hesite! Experimente explicar, mas se não for capaz peça ajuda a um especialista nesta matéria, ou a uma professora especializada. Verá que vale a pena e que o seu filho irá sentir-se orgulhoso.

Mais uma vez parabéns e continuem.
Felicidades para o vosso filho.
Licas

Tite disse...

Olá Licas!!!

Bom Fim de Semana é o que vos desejo primeiramente.

Agora sobre o teu post e o caso do Francisco, vi a notícia e também eu fiquei fula com a Polícia Americana que, pareceu-me, negligenciou um pouco este caso.

Felizmente que este jovem andava sempre com a sacola/mochila da Escola bem abastecida de lanches e guloseimas e ele conseguiu assim viver todos aqueles dias sem correr riscos de maior.

Sou solidária com todos os Pais que têm filhos problemáticos. É que todos querem tratar os filhos como pessoas normais mas eles não são nem correspondem ao que nós gostaríamos. É importante que, simultaneamente com o ensino especial dos filhos se faça a formação dos pais para lidarem com a especificidade da doença. Aí reside a ultrapassagem de certas lacunas que, doutro modo, longe de solucionar só agravam o problema.

Beijossssss

Licas disse...

Pois é Tite ...
Formação ... Formação :.. Formação ,,, Quanto mais melhor e não apenas dos Pais, mas dos Professores, outros Educadores e mais modernamente dos Avós.
Todos têm que estar àlerta para esta e outras patologias porque a intervenção precoce é muito importante e tem que começar se possível ... antes do nascimento (é uma forma de dizer ... mas que pode ser entendida como Muito, Muito Cedo). Quanto mais cedo e melhor a criança for apoiada, tanto melhor pde vencer as barreiras do "especial" e passar a ser alguém enquadrado na sociedade em que vive, sabendo aceitar e contornar as suas limitações.

Tite disse...

Licas,

Só gostava de saber com que idade se percebe que a criança sofre desses terríveis síndromas?

É que, pelo que me apercebo, isso só é detectável quando a criança deveria começar a falar ou andar na escola e não responde a certos estímulos, será?
Depois também me parece que há Pais que demoram a querer acreditar que isso se está a passar com os seus próprios filhos. Daí a complicação de se começar cedo a sua preparação para lidar com a situação.

paulofski disse...

Agradeço desde já as suas palavras Licas. Sim, desde sempre que estamos em "campo" e muitas intervensões já foram feitas junto da direcção da escola, da directora de turma e directora de curso. No inicio do ano lectivo ele estava felicissimo, está no curso que deseja (para tal fez orientação vocacional), gosta da escola e da maioria dos professores. É praticante de judo há 5 anos e também foi integrado no grupo desportivo escolar. Os alunos que frequentam este curso vão dos 15 aos 20 anos e são oriundos de várias paragens, e alguns dos rapazes mais velhos dominam a classe e aos poucos foram fazendo do meu filho o "bombo da festa", não por agressões fisicas mas verbais, com observações e insultos, e gestuais, com actitudes mesquinhas, às quais ele não dava grande importância mas que o foram desmoralizando até ter tido a coragem, e para eles isso é mesmo um acto de coragem, de nos pedir ajuda. Aí tomamos a decisão de intervir directamente com a escola, com todo o cuidado para que os colegas de turma não se voltassem contra ele. É seguido por uma psicóloga desta área que está em contacto directo com a psicóloga da escola e mais directamente dentro do problema.

Mais uma vez agradeço-lhe as suas palavras. Seguirei o blogue com todo o gosto. Bem haja.

Pó de Estrela disse...

Licas

Quase no fim da minha carreira, Deus concedeu-me a Graça de ter comigo ao longo de quatro anos, três crianças com Autismo e três com Asperger.
Foram os anos mais gratificantes, mais extenuantes e mais belos da minha carreira. O meu dia começava às 06h30 e acabava às 01h30.Tudo, porque infelizmente neste país no que diz respeito a Formação, ainda não descobrimos a roda!A falta de materiais e de informação faziam com que ficasse ao computador a procurar informação e a corresponder-me com vários pais, que tinham filhos nas mesmas circunstâncias.
Os pais destas crianças, são uns HERÓIS!
Ninguém que não tenha lidado com eles dia a dia, sabe o que eles passam.

Primeiro o diagnóstico, que se fosse mais precoce evitaria muitos dissabores!

Depois, os métodos a seguir! Conheci e apliquei três, mas aquele que comigo deu mais resultado foi o floortime,talvez também por ter mais a ver com a minha personalidade.

Por fim, vem o dia a dia.
O filho que não quer entrar no autocarro porque não tem o mesmo reclame do dia anterior, ou berra no supermercado, porque os estímulos são agressivos ( Se fosse meu filho, apanhava uma surra!)é o que os pais destas crianças ouvem quase todos os dias!!!
É o vestir que tem que ter um ritual que se segue à risca! Um dia, uma mãe chegou ao pé de mim, com o filho ao colo, descalço, porque ela não o tinha conseguido calçar!
Conclusão: O pai normalmente é que o calçava antes de sairem de casa e calçava-lhe sempre o pé direito primeiro! Nesse dia tinha sido a mãe por o pai estar doente e ela pura e simplesmente não acertou com o pé!

A somar a isto tudo, vem a geração dos "coitadinhos"!Toda a gente tem muita peninha, mas aceitá~los de uma forma integradora...Tá Kéto!

Muito haveria a dizer sobre o tema, mas também é preciso que haja quem queira aprender!

Quanto ao filme e notícia, de forma alguma é um comportamento habitual com pais de crianças com estes Síndromes. Na maioria são cuidadosos, atentos e preocupados, mas nenhum está livre de "perder" o seu filho.

Tenho na minha posse um documento sobre as regras do autismo, que se a Licas não se importar, posso por no meu blog! São os mandamentos do autista e de todos os que sofrem este género de síndromes.

Um Beijinho cheio de Pó de Estrela

Licas disse...

Estou feliz por ver todo este entusiasmo e debate, Acho que todos os que tiverem algo a dizer sobre o tema o devem fazer, pois estamos aqui para aprender e ajudar os que precisam. pois se tu, quica, tens essa panóplia de aprendizagens concretas, não só podes como deves e irei lá cheiretar.
Estou a pensar tocar aqui npoutros tipos de patologias igualmente menos frequentes e que exigem uma intervenção atempada. Que dizem?
Continuação de bom fim de semana.
Licas