
Ontem, dia 16 de Novembro, celebrou-se o Dia da Tolerância!
Acho um tema interessante para desenvolver, porque cada vez mais este conceito parece estar a desaparecer das nossas vidas e até o seu significado a esbater-se no interior do dicionário.
Citações: «A tolerância é a caridade da inteligência» (Jules Lemaître).
«Ela implica que os outros não pensem como nós, sem por isso os odiar». (P.H.Spaak).
«A tolerância é este género de sabedoria que ultrapassa o fanatismo, este terrível amor da verdade» (Alain).
«A tolerância é uma ascese no exercício do poder» (Paul Ricoeur).Vou pois pensar um pouco convosco...
A palavra tolerância, provém da palavra Tolerare que significa etimologicamente sofrer ou suportar pacientemente.
O conceito tolerância radica na aceitação daquilo que se apresenta distinto da maneira de agir, pensar e sentir de cada um.
Este tolerar pode significar uma simples aceitação das diferenças, ou uma capacidade maior de aceitação e integração de alguém que por diferentes razões é diferente de nós próprios.
Talvez se compreenda melhor se recuarmos um pouco até à fundamentação teórica deste conceito e perguntarmos...
Será a tolerância uma exigência moral? Teológica?
Segundo alguns filósofos há quatro perspectivas essenciais sobre a fundamentação da tolerância.
1.
A Tolerância como Prudência. Pode tolerar-se por mero calculo, tendo em vista, por exemplo, evitar conflitos quando não se têm a certeza quanto ao desfecho final dos mesmos. Pode também tolerar-se posições contrárias quando não se tem a certeza sobre algo.
2.
A Tolerância como Indiferença. Pode tolerar-se por uma questão de princípio relativista. Se aceitarmos que não existem verdades absolutas, então todas as posições se tornam legítimas e aceitáveis. Pode tolerar-se também devido há ausência de convicções e valores próprios. Neste caso aceita-se as ideias do Outro não por respeito, mas porque não se possui nada para opor ou defender. Nesta perspectiva, a tolerância terminar quase sempre no indiferença, onde a verdade e a mentira se equivalem.
3. A
Tolerância como Culto das Diferenças.Podemos ser tolerantes por respeito pelas diferenças do Outro. Nas nossas sociedades, este tipo de tolerância manifesta-se frequentemente em relação a duas situações muito distintas: a) Aceitam-se e respeitam-se as diferenças daqueles que outrora foram discriminados, como os homossexuais;
b) Aceitam-se e respeitam-se todas as culturas que antes foram discriminadas ou combatidas. Neste último caso, a sua negação é assumida como um empobrecimento da diversidade cultural da humanidade. Este princípio tem servido tanto para fundamentar o multiculticulturalismo como o racismo e a xenofobia. Na verdade a aceitação da identidade cultural do Outro não significa que o aceitamos como igual, nem sequer que aceitemos conviver no mesmo espaço."Iguais, mas separados" é, não nos podemos esquecer, um dos novos lemas do racismo.
4. A
Tolerância como uma exigência dos Direitos Humanos. Desde a antiguidade clássica que a especulação sobre a natureza humana se traduziu na afirmação de que todo o ser humano possui um conjunto de direitos fundamentais ou naturais imutáveis: liberdade, dignidade, etc. Baseado neste pressuposto, John Locke, por exemplo, irá fundamentar a tolerância.
Agora...
É inquestionável que a tolerância não é universal e constante. Tem, como tudo na vida, os seus limites pelo que deve ser exercida conscientemente , respeitando os direitos individuais, incluindo os seus próprios direitos, enquanto ser humano, cidadão, trabalhador ... A tolerância ilimitada e mal dirigida pode levar a dicotomias tão flagrantes que neguem a própria verdade e significado da existência e revertam o fim único desta atitude social ou individual que nos leva, não somente a reconhecer o direito a opiniões diferentes, mas também a difundi-las e manifestá-las pública ou privadamente.
E termino com uma frase de Confúcio, que julgo resumir a essência desta virtude
"Ninguém deve crer que sabe mais que os demais e que a razão está só com ele"
Privilegiar a liberdade sobre qualquer forma de dogmatismo, é a essência da sã convivência entre os homens.
Isto verifica-se na sociedade e muito especialmente nas famílias.
A intolerância creio, é a verdadeira e única razão dos divórcios, da violência doméstica, do desvio dos jovens, do insucesso escolar e de todas as situações angustiantes que povoam o mundo e especialmente, porque nos afecta mais directamente, que afecta Portugal.